quinta-feira, 10 de maio de 2012

Estratégias para um Jogo Sério

Olá amigos!

Apresento um texto que originalmente foi escrito para o site "O Baterista", em 2011. Reflete sobre a profissão de músico.




ESTRATÉGIA


Sempre gostei de um jogo de tabuleiro chamado WAR. Sim, aquele jogo de estratégia, no qual temos que conquistar os continentes do mundo (Europa, Ásia...). Vence o participante que primeiro conquistar os continentes solicitados na sua carta OBJETIVO. 
O que isso tem a ver com bateria? Nada, vamos mudar de assunto.
Brincadeira! É que percebi que podemos tirar algumas lições dele para a nossa prática do instrumento... (Quem não conhece não precisa se preocupar, pois vou falar das associações que fiz sem me ater a regras muito específicas).
Como introdução ao assunto, destaco a palavra JOGO. Quando alguém propõe: “Ei, que tal jogarmos...”, provavelmente a ideia será divertida. É exatamente assim que me posiciono com relação ao meu instrumento, costumo dizer que eu “jogo” bateria. Diverte, me faz aprender, aperfeiçoa a minha coordenação motora, o meu raciocínio. Mas assim como no WAR (olha ele aí de novo), não entro pra perder, mantenho o foco no meu objetivo, me esforçando para render o meu melhor e alcançar as metas estabelecidas. 

E Começa a Partida

Sem objetivo não temos como começar o jogo, então vamos supor que o meu é conquistar a Ásia e a América do Sul. O que fazer? Vamos com tudo e com força total rumo à conquista desses continentes? Não é tão simples assim. É claro que essa é a minha meta, mas tenho que saber ser EQUILIBRADO e FLEXÍVEL, senão meus exércitos que estão em outros continentes ficarão muito vulneráveis a ataques e assim, sem uma força em conjunto, viro presa fácil e sou eliminado:


Análise 1 – planejando uma carreira como baterista profissional

Para conseguirmos alcançar nossos objetivos de criar uma carreira musical sólida e duradoura, é importante que consigamos reunir um conjunto equilibrado de habilidades. Bateristas que sabem fazer mil truques com as baquetas, mas não conseguem extravasar a sua musicalidade, transformando técnica em música; ou bateristas que querem ser especialistas em jazz (um exemplo) e sendo assim só vão estudar jazz, estão em desvantagem nesse “jogo”. No primeiro exemplo será difícil algum grupo ou cantor querer trabalhar com alguém que imprime um groove desconfortável para a banda, sem musicalidade. No segundo exemplo, a rigidez de postura pode levar esse perfil de baterista a perder oportunidades que poderiam trazer justamente a tão sonhada gig de jazz! Sabe aquela história: vai rolar um som com uma cantora bem conceituada na área do samba e sabe quem vai ser o guitarrista? Um grande nome do jazz que poderia curtir o teu som e oferecer trabalhos na área que você mais gosta. Mas foi outro batera no lugar, pois você não sabe nada de samba.
Concluindo, faltou uma visão global do que é ser um baterista que vive de música a esses dois perfis, faltou-lhes flexibilidade. É importante definir em qual terreno você quer se especializar, se sente mais à vontade e quer se destacar, porém é importante ter um bom conjunto de atributos, uma base sólida para a casa não cair um dia.

Muito bem, voltando ao jogo, me concentrei então em fortalecer os meus exércitos antes de partir com tudo a um ataque mais radical. Rodada após rodada fui acumulando o máximo de força possível para conquistar meu objetivo, mas aí começaram a me atacar e estou prestes a perder o jogo... Pergunta clássica: “Aonde foi que eu errei”? Faltou OUSADIA e COMPETIVIDADE:


Análise 2 – aplicando o conhecimento

De nada adianta eu ter a discografia inteira do Billy Cobham se for ouvi-la somente quando estiver no computador conversando com meus amigos pelo MSN. Ou então gastar horas baixando dezenas de vídeo-aulas da internet pra depois ficar assistindo enquanto como pipoca. Colecionar é hobby, demonstrar aos amigos um conhecimento musical apurado é cult, mas... Vamos juntar nossos melhores discos, os melhores play-alongs, vídeo-aulas e métodos e vamos à luta! Se não arregaçarmos as mangas e encararmos o fato de que tocar bateria vai exigir esforço e dedicação de nossa parte, nem adianta reclamar depois que ninguém te chama pra tocar em uma gig legal. Não cabe nesse texto discutir o papel da música como uma forma de arte. Ela é e ponto final. Mas não sejamos ingênuos, a música também está inserida no contexto “mercado de trabalho”. Sendo assim, há e é importante que exista a competição. Desde que entendida como uma manifestação saudável, a competição nos dá motivação para ir mais longe, superar limites, ousar mais, para que assim nos destaquemos ante a uma quantidade enorme de profissionais da nossa área.
Já que só falar também é muito fácil, vamos a um exemplo prático. Veja o DVD “Acústico MTV” da Marina Lima e vejam quem está tocando bateria. Não é aquele cara da pipoca aí de cima não... É o Cuca Teixeira. Agora vejam o DVD “Segundo” da Maria Rita. Será que resolveram dar uma chance pro nosso amigo? Não, também é o Cuca Teixeira. Ah, mas nosso amigo é um cara “malandro e persistente”, tentou uma audição pra banda da Paula Lima. Será que a sorte colaborou agora? É só ver o DVD “Samba Chic” da Paula pra tirar a dúvida... Lá está o Cuca novamente! Panelinha? Não mesmo. Competência, estudo sério, compromisso com a profissão, isso sim que é malandragem, e é isso sim que favorece a sorte.

No desenrolar da brincadeira estava até me restabelecendo no jogo, aí um tio meu que estava por lá veio ver quem estava mais perto de conquistar o objetivo e gentilmente me disse que se continuasse naquele caminho ia perder. Agradecido, mudei a ESTRATÉGIA e 3 minutos depois fui eliminado; ele nem viu, pois já estava de saída para ir ao shopping:


Análise 3 – seguindo o seu próprio caminho

De maneira nenhuma estou propondo que nos revoltemos contra o mundo e sigamos rumo ao desconhecido, sem dar atenção a nenhuma opinião alheia. Mas é importante termos critérios antes de acatar ou não um conselho. Por que não ouvir a opinião de um tio sobre um problema amoroso? Por ser mais experiente, quem sabe ele não pode me ajudar e esclarecer questões que sozinho não consegui enxergar... Agora se ele vier com um papo de que música não dá futuro, que experiência ele tem nisso pra poder afirmar, sendo engenheiro mecânico? Vamos supor que desanimo, paro com meus planos e vou estudar advocacia, pois “é mais seguro”. Desgostoso da vida, torno-me um profissional medíocre, infeliz e desse jeito, constantemente desempregado ou ganhando mal, pulando de emprego em emprego por minha incompetência na área. A culpa disso tudo é desse tio ou minha? Minha, claro, pois por mais que tenha sido com boa intenção, o conselho dele não tinha base nenhuma e mesmo assim EU resolvi ir atrás.
Não importa qual carreira a ser seguida, temos que nos espelhar e buscar auxílio com profissionais que conseguiram obter êxito na profissão em questão. Claro que ninguém dará uma receita mágica para o sucesso (ela não existe), mas podemos obter orientações, conselhos e dicas valiosas pra começarmos a trilhar nosso caminho. A partir daí, trabalho, trabalho, trabalho. As dificuldades não são um privilégio da profissão de músico, portanto se é isso que você quer, melhor que seja difícil porém prazeroso, do que difícil e frustrante; as chances de darem certo são bem maiores assim. Fugir de conselhos de pessoas pessimistas que se colocam no papel de vítima também é uma boa ideia. Realmente, como disse Guimarães Rosa, “viver é muito perigoso”, então nada de ficar reclamando sem fazer coisa alguma pra melhorar, primeiro faça depois veja o que acontece.



Com certeza outras análises podem ser feitas em cima do WAR, o que renderia muito mais assunto. As minhas foram essas três e representam a minha opinião, agora está na hora de tocar, tanto pra mim quanto pra você! 


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